Histórias Na Minha Praia

Numa outra ocasião, também em Cabo Frio, a praia estava bem vazia e, enquanto eu caminhava, avistei um menino de uns dois anos com os pais. Eu vinha olhando para ele porque eu adoro ver a alegria pura das crianças em contato com a praia. Estabelecemos então uma conexão profunda de olhar, sorri para ele sedutoramente e ele me retribuiu. Permanecemos assim até que, por ter que seguir meu caminho, esse contato foi se perdendo e eu tive que dar tchau para ele. Continuei no meu passo e comecei a ouvir um choro. Quando virei para trás, vi que aquele menininho chorava copiosamente com os braços estendidos na minha direção, enquanto os pais o tentavam segurar e consolar de maneira perplexa.

Ainda não era do conhecimento daquele menininho que para tudo que na vida damos oi, vamos ter um dia que dar tchau… Mas fiquei muito impressionada com o poder da sedução e do encontro que se promove quando ela acontece de um lugar sensível. Digo sempre aos meus alunos que seduzir é um movimento de saúde, que desperta mais vida dentro da vida. É um movimento erótico, que nasce de eros, o amor. O movimento da vida. Para eu seduzir preciso estar nesse movimento. Não falo da sedução que conhecemos e vivenciamos hoje, na nossa sociedade, mas a sedução que promove a existência e a qualificação do outro no ato de ser tocado por outro ser humano. Falo de um estado erótico de abertura amorosa para a vida. Seduzir para trazer à vida, seduzir para qualificar enquanto ser que desperta coisas. A sedução é um instinto que até as plantas são capazes de usar na intenção de reproduzir e perpetuar a vida. Já nós humanos somos animais diferentes: estamos eternamente em cio ou, se não nos encontramos em estado de apetite pela vida, acontece o oposto: deprimimos. Seduzimos se nos encontramos em estado de apetite pela vida, seduzimos para dar existência e para existir.

Se ninguém qualifica minha presença, nem que seja com o olhar, eu simplesmente não posso existir, enquanto humana. E se não ressoamos, de que valemos? Somos tudo e nada. Só nós podemos trazer à tona as nossas novidades, a partir da vida que vivemos e das relações que estabelecemos.

A sedução nasce no olhar, no olhar disponível para ver, ver além de si mesmo, para estabelecer uma comunicação. Eu falo de comunicação e não de dominação e poder. Hoje vivenciamos a  sedução como caminho de manipulação, usada de maneira mercantil para servir ao “eu”.

Para seduzir, de saída, preciso me abrir para a relação, e relação envolve o nós. Hoje as pessoas seduzem para SE qualificarem, para SE sentirem poderosas, mas a sedução saudável principia justamente no tu e não no eu.

Algo novo surge e minha percepção busca essa novidade com o olhar que vê. E então o encontro pode acontecer, como aconteceu comigo e com aquele menino. Ao te dar existência, também posso existir no seu olhar, e então um turbilhão de energia pode surgir. Não uma energia para te aprisionar, nem me aprisionar, ou, muito menos, para te usar. Mas uma energia com o único propósito de existirmos juntos, aqui e agora. Essa é a essência do verdadeiro encontro, o verdadeiro presente. A supressão do eu e do tu: o nós!

O ser erótico é aquele que se encontra em estado de apetite pela vida, aberto para a relação, com todos os sentidos aguçados. Respirando e sendo respirado.Se alimentando e sendo alimento. Participando ativamente e em ressonância com a abundância da vida. Presente presente!

 

Leila Maria Augusta de Almeida.

2 Comentários»

  Lice Enderlein wrote @

Muito bom, Leila! Adoro palavras que fazem pensar e reconsiderar certezas e posturas. Obrigada!

  Ana Claudia Guedes wrote @

Resignificando padrões nocivos. Qualificando o lugar de Eros! Lindo!


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