Palestra no Hospital Pedro Hernesto durante a 50º Congresso Científico do Hupe: Avanços Tecnológicos em Educação e Saúde.

“Um Toque em Quem Toca.”
Estou muito feliz e tocada com nosso encontro de hoje!
Quando pensei nesse título, o escolhi por sua simplicidade,  fato que vem se tornando constante em minha vida: tornar-me mais simples.
Falando um pouco desse ser humano, tocável e tocante que sou eu, poderia dizer que tive uma boa vida. Fui celebrada ainda na barriga de minha mãe, tive uma família amorosa, festiva e alegre. Tive tudo do bom e do melhor, mas isso não me fez mais feliz, pois sempre me incomodou o fato de saber que estes não eram atributos constantes na vida de todas as pessoas.
Celebração e partilha, assim era a nossa vida. Por isso não entendi, quando aos 57 anos meu pai se descobriu com cancer, tendo falecido aos 59. Assim a vida me subtraiu sua presença. Achei que estaríamos protegidos por forças maiores, pois só fazíamos o bem. Quanta ingenuidade! Hoje eu sei que o bem e o mal são percepções únicas e intransferíveis! Mas naquele momento fiquei revoltada e muito triste. Tudo perdeu o colorido para mim. Embora permanecesse cumprindo os meus papéis de mãe, mulher, filha, irmã e amiga, a Leila, aquela celebrante, alegre, erótica, festiva e transformadora, estava quietinha, encolhida bem lá no fundo de mim.

Hoje tenho consciência que passei por um processo depressivo, brando. Esse período teve a aproximada duração de 5 anos. E quando, no final dele comecei a voltar a ter vontade de achar graça numa piada, meu irmão mais novo, aos 29 anos, sai de casa para uma festa e não volta vivo, vítima da violência da nossa cidade. Quando esse fato aconteceu, me vi totalmente sem chão, numa queda vertiginosa até o fundo do poço da tristeza. Desenvolvi uma doença auto-imune, e meu médico me indicou uma terapia. No entanto, eu não me via, naquele momento, querendo falar, eu só queria ouvir música e chorar. Foi duro dar de cara com a morte de alguém tão jovem e cheio de vida. Foi quando, no canal GNT assistindo ao programa Alternativa Saúde, vi uma sessão de Biodanza e aquilo me tocou o coração.
Parece uma loucura, mas foi a coisa mais saudável que eu pratiquei em toda a minha vida. Em menos de seis meses eu tinha recuperado minha alegria, meu tesão, a confiança e pude reverenciar meu pai e meu irmão como presenças fundamentais amorosas em minha vida! Em um ano quis mudar de profissão e peguei o dinheiro do seguro de vida que ele me deixara e fui fazer a formação em Biodanza, por que cheguei a conclusão que as pessoas mereciam conhecer essa possibilidade. Por isso hoje eu estou aqui, me responsabilizando por permanecer na vida celebrando e partilhando!
Rolando Toro, criador da Biodanza aponta dois caminhos  para o sofrimento e eu tomei os dois quando deparei com o meu  em momentos diferentes da minha vida!
Quando meu pai morreu: do sofrimento à depressão. Quando meu irmão morreu: do sofrimento a plenitude. E, o instrumento que me possibilitou trilhar esse caminho era muito simples: Biodanza.
Através daquele ambiente gerado por cada sessão de Biodanza, enriquecido de música, presença humana, movimento, poesia e encontros fui rapidamente resgatando minha humanidade.  Ressignificando minha relação comigo mesma, com minha família, com o outro e com a vida. Reestabelecendo vínculos saudáveis com meu corpo, minha alimentação, com meu desejo, minha capacidade de por as mãos na realidade e de transformar. Reescrevendo minha história a partir de um caminho ético, onde o outro é o ecofator mais importante para me tornar mais humano, meu maior e melhor espelho, aquele que me oferece a possibilidade de reflexão. Minha oportunidade de evolução e crescimento. Meu caminho para transcender. Ir além.
Descobri, a duras penas que não temos escolha, seremos guiados ou arrastados pelos fatos. Ser guiado significa utilizar o fato a seu favor e por as mãos no destino, criar uma oportunidade. Ser arrastado pelos fatos significa se deixar levar. O destino é a mão que te carrega: as coisas são assim mesmo, eu sou assim mesmo, eu sei tudo e tudo que sei é que não tenho mais nada a fazer a não ser aceitar o sofrimento passivamente, e dar tempo ao tempo. Foram 5 anos da minha vida sem nem pedir ajuda. Quanta onipotência!
Sofrer em vão, não gera nada, apenas mais sofrimento! Você fica cada vez mais paralizado, vai ficando sem força de vida para fazer o que precisa ser feito. Falsa afetividade porque paralizados não conseguimos dar um passo, e muitas vezes precisamos apenas dar o primeiro passo em direção à nossa saúde.
É necessário e urgente que demos alguns passos nessa direção. Um local como um hospital tem morte, sofrimento e dor, às vezes insuportáveis para quem sente e para quem cuida. Não podemos ficar lidando com isso o tempo todo, sem ter um contraponto. Mas como mudar esse panorama? Entrando em contato com nossa capacidade de responder à realidade de maneira a gerar bem estar. Abrindo-se à conexão com a vida e com o que é vivo em nós!  Estou aqui hoje para tocar vocês em  sua responsabilidade com a saúde. Cada um de nós é um elemento com capacidade transformadora da realidade. Autonomia, esse é o caminho. Podemos colocar as mãos no destino, moldar a matéria do mundo de maneira afetiva e efetiva!
Precisamos reinjetar sabedoria, nas áreas médicas esterilizadas pela objetividade. Esterilizar significa matar tudo que está vivo. Não precisamos nos tornar estéreis, assépticos. Precisamos apenas nos habilitar para o encontro e então o milagre pode acontecer! A  vida é uma oportunidade. Cada encontro com um paciente, também! Uma oportunidade de se ver, se rever, se tornar mais humano, mais eficiente, mais feliz! E a proposta da Biodanza é dar o contraponto: que nos encontremos para celebrar, cantar, dançar, acolher, comprometer e responsabilizarmo-nos pela vida que circula por nossas mãos. Sabedoria e conhecimento, em ação! Para conhecermos precisamos separar as coisas,  mas para saber precisamos reuni-las. Assim se dá o encontro: em ação de união e separação. Encontro, nossa oportunidade de evolução e transformação!
Rolando Toro dizia que viemos a essa vida para nos encontrar, que esse é o grande milagre. Cada encontro que não acontece é uma verdadeira tragédia.
Parece muito simples, encontrar com algo ou alguém. Já parou para pensar no que envolve um encontro? Já parou para pensar no grande milagre que está acontecendo aqui e agora? A gente ter se encontrado em um universo de milhões de pessoas que já habitaram esse planeta? Já repararam o que um encontro casual promove de vitalidade em nós?Como é bom encontrar alguém no meio da multidão?
Numa sessão de Biodanza praticamos com alegria, música, responsabilidade e compromisso mais de 20 encontros por sessão, todos dançantes e celebrantes!
Rolando Toro  se referia sempre à  Biodanza como “A Poética do Encontro Humano”. E, essa é a nossa proposta para a educação e a saúde: oferecer um ambiente enriquecido de alegria, celebração, presença, vida, música, movimento, vivência e encontro. Sacralizar  cada oportunidade, para que a vida possa seguir florescendo.  Oferecer um espaço onde  possamos desenvolver  potenciais de saúde, afetividade e criatividade.
Sair  da função de curador e agregar a missão. O sagrado do que fazemos.
Afinal, onde está a sacralidade do curador? Precisamos injetar valor onde a técnica já está. Se pudermos unir em ação essas duas forças nos tornaremos mais completos e muito mais felizes.
Necessitamos urgentemente encontrar um nexo em nosso dia a dia. Pois, se a vida perde o sentido, se perdemos a sensação de pertencer e de conexão com o que é vivo, a enfermidade se torna inevitável. A sensação crônica de medo e de defesa não nos defende, faz com que percamos a base da saúde que está na alegria, no amor e na confiança. Sem esses atributos a própria força da vida parece retirar-se do corpo. Perder a alma é grave.
O mito de Orfeu nos fala disso! Orfeu tinha um dom e não o podia manifestar até que recebe uma lira de Apolo e assim, se torna um encantador da vida por onde passa, através do poder da sua música. Um dia ele se apaixona por Eurídice e nela deposita toda a sua força de vida, todo o seu amor. Um certo dia, ela é picada por uma cobra e morre. Orfeu fica desolado e resolve mover mundos e fundos para trazê-la de volta ao reino dos vivos. E, com o poder do seu dom, a música, é capaz de encantar todos no caminho. Recebe de Perséfone, rainha do mundo dos mortos, esposa de Hades, a permissão para trazer de volta a sua amada. Contanto que saia sem olhar para trás! Após passar por todas as provas encontra sua amada e segue na sua frente até a saída do reino, mas, um momento antes de sair, ele perde a confiança em tudo que ele conseguira e se vira para trás para se certificar da presença de Eurídice. Nesse momento sua amada é sugada novamente e ele a perde para sempre. Desolado, perde o ânimo de exercer o seu dom e vira um andarilho. Com isso as ninfas se sentem muito ofendidas e matam e esquartejam Orfeu.
Nunca delegue sua alma a outrem, sua anima. Aquilo que te anima, está dentro de você e é sua responsabilidade. Confie em você, confie no caminho que você constrói com o seu dom! Olhar para trás tira o foco do presente e, apenas no presente, podemos fazer o que precisa ser feito!
Leila Maria Augusta de Almeida.

1 Comentário»

  janaina wrote @

Admiro-te Leila Maria , sempre exuberante quando tocada pela música o seu corpo dança como os pássaros em toda sua plenitude…. bjkas no teu coração
Jana


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